Por que não demitir? A história de um recrutador…

Homem na chuva

O frio era frio, nem tão forte, nem tão suave, mas frio, sentido, incomodo pertinente acompanhado da fina garoa na grande cidade, nos tantos passos e tentativas desse desempregado. Mais um, entre tantos que por ele, se foram.

O recrutador era valorizado nas empresas que passava, selecionava com afinco os profissionais certos para os setores necessitados. Em alguns momentos foi disputado por diversas empresas e soube, nas melhores horas, se valorizar, se posicionar e conquistar seu espaço, firmando seu nome.

Em épocas onde administrações menos eficientes e mais radicais eram valorizadas, o recrutador era um astro.

Com ainda maior determinação com que contratava, demitia.

Sabia retirar, rapidamente, os profissionais que antes havia selecionado. Reposicioná-los não era uma prática muito adequada e nos momentos de alguma dificuldade ou acerto, não hesitava, demitia.

Era ferrenho, determinado e tinha sempre uma pergunta, por que não demitir?

Os anos se passaram, as práticas se transformaram e as empresas passaram a enxergar mais longe, entendendo que cativar o funcionário é a chave para o sucesso.

Alguns líderes pregavam “demissão, apenas em último caso”.

Inabalável, o recrutador sabia que seus métodos eram eficientes, que conseguia diminuir os gastos em suas empresas e estava certo que era um excelente meio de redução de custos.

Mais tempo se passando e, levando com ele, a boa fama do recrutador, que passou a ser uma lenda no mercado, sendo visto como carrasco.

Com a administração moderna, o que antes não se enxergava, agora era óbvio.

Demitir 1 funcionário é afastar um profissional, que terá dificuldades para si próprio, familiares, abalará sua auto-estima, determinará uma série de problemas que, em efeito cascata, serão geradores de traumas e desentendimentos.

Demitir 400 funcionários tem um impacto muito aquém de demitir o João da portaria que está ali faz 10 anos, a Maria da limpeza, que é mãe solteira, o Luis que tem um filho que faz tratamento por estar acima do peso, ou o Russell que teve uma infância atordoada, e todos os nomes e histórias envolvidas, enfim, é esquecer dos nomes, situações dos que vivem e dos que estão ao lado.

Demissão é trauma, é rompimento, é insônia para os que sofrem que, em geral, sofrem.

Quando realmente é necessidade, não havendo outra alternativa, deverá ser bem amparada e bem administrada.

Saber não é se conscientizar. O recrutador sempre soube, mas nunca sentiu, nunca enxergou e nem tinha vivido tal situação.

Com o passar dos tempos e das práticas, a chegada de novas mentes e técnicas, o recrutador também se foi.

Se perdeu, no tempo, sem o seu espaço, a procura de si mesmo na imensidão escura de seu universo particular.

Novos tempos, práticas e pensamentos. O recrutador, agora, tenta se adequar, sem poder voltar.

Já dentro do ônibus pensa “Talvez aqui dentro tenha alguém, ou algum parente de alguém que demiti, vai saber…”

O ônibus cheio sobe a rua escura, ainda chuvosa, levanto muitas histórias, como sempre.

As tentativas, do recrutador, de conseguir um novo emprego foram feitas e amanhã será um novo dia…

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