O vendedor e o chapéu…

o vendedor e o chapéuAo abrir os olhos, percebeu que o dia ainda não estava claro, o sol ainda não chegara, mas o sono já se fora.

A ansiedade era grande, este seria o primeiro dia de seu emprego.

Colocaria em prática tudo aquilo que lhe havia sido ensinado durante todos os meses de exaustivos treinamentos e cursos que fizera.

Era vendedor. Com todo orgulho e vitalidade que sua idade lhe proporcionava, tinha a certeza de que iria concretizar sua primeira venda.

O caminho percorrido foi maior que a sua distância em si, pelo menos assim a ansiedade lhe fazia crer, quando já estava na rua, perto do local de sua primeira e mais importante visita, percebeu que esquecera um detalhe, estava sem o seu chapéu.

Ele na verdade não costumava usar sempre esta peça tão importante na vestimenta de todo cavalheiro de 1934, mas sabia de sua importância para a sociedade e para uma visita formal como a que iria se iniciar.

Tentou esquecer deste pequeno detalhe, que poderia lhe trazer grandes transtornos, usou das mais modernas técnicas da época para poder mostrar-se tranqüilo e confiante, como exigia a ocasião.

Ao entrar no prédio, percebeu que tudo ali era suntuoso; piso de mármore, paredes revestidas com um material que não conhecia, combinavam perfeitamente com os imponentes lustres que, pendurados em um teto de mais de 10 metros de altura,  demonstravam a importância e a suntuosidade daquele lugar.

Após vinte e três minutos de espera, a secretária veio informar que seria atendido por ninguém menos que o proprietário daquele local, sensação que imediatamente lhe empurrava para fora do prédio numa vontade de desistir, como se o medo pudesse, neste momento, ser racional e companheiro, a ponto de poder lhe oferecer esta última prova de amizade e compaixão.

Ao medo faltou astúcia, por não poder esconder da racionalidade que não existia motivo para não enfrentar tal situação. Ele mesmo já ouvira centena de casos em que isso ocorreu nas primeiras visitas de um vendedor.

Para tentar acalmar-se, respirou fundo e fechou os olhos.

Sem perceber, após reabrir, se deu conta que já estava na sala de seu talvez futuro cliente.

Pela forma como a conversa se desenrolava, percebeu que estava muito bem para sua primeira visita, avaliou que não era assim tão difícil como sempre imaginou.

A visita já durava mais de uma hora e os dois haviam conversado sobre política, economia, até mesmo filosofia, e, é claro, o principal motivo que o levou até aquele local, as modernas geladeiras que proporcionariam ao seu proprietário um grande bem estar.

Agora, tão tranqüilo quanto estar em sua casa, ouvindo os seus Lp’s prediletos tocando em sua vitrola, já estava quase tirando o pedido de compra para entregar ao seu cliente, quando recebeu uma notícia que lhe chegara como uma bomba, sendo este inclusive um dos assuntos em que conversaram no encontro.

Seu “ex-futuro primeiro cliente” lhe disse que realmente estava convencido com sua fantástica explanação a respeito das modernas geladeiras Também admirava muito sua vasta cultura e idéias, apesar de tão pouca idade, e mais, iria comprar a geladeira, só que de outro vendedor, que não se esquecera de comparecer com chapéu, que não só era uma parte muito importante da vestimenta, como também um requisito básico para se entrar naquela empresa,  justamente o maior fabricante de chapéus em todo o país.

No caminho de volta para a casa, o nosso já tão familiar vendedor, já que o acompanhamos em um dos mais importantes acontecimentos de sua vida, não se conformava com o esquecimento, não se perdoava pelo seu erro, mas desta vez, tentava se esquecer, para que pudesse perdoar, ou ao menos não se lembrar de seu erro.

Refletindo sobre a visita, já em casa, no seu quarto, tentando vencer o problema e o trauma que o chapéu, ou a ausência dele lhe trouxera, foi vencido pelo sono. Parecia que essa disputa era um meio de provar que alguma coisa ele poderia vencer.

Sofreria a terceira derrota em um só dia; a primeira de não conseguir concluir a venda, a segunda por não vencer o problema e o trauma que a primeira lhe trouxera e ao tentar levantar este último desafio, seria concretizada sua terceira derrota.

Com suas últimas forças e com todo seu poder de concentração, se é que ainda o tinha, já que tudo se originara pela falta dele, percebeu que talvez fosse melhor não resistir ao sono, já que se ficasse acordado enfrentaria mais um problema, a falta de otimismo por só poder enxergar o aspecto negativo da situação.

Não suportando mais, fechou os olhos.

Sem perceber, após abrir-los, se deu conta que aquilo tudo aquilo havia ocorrido há sessenta e cinco anos atrás.

Mais experiente, percebeu que havia perdido o orgulho e a vitalidade que sua antiga juventude lhe emprestava, para nunca mais encontrar.

Tinha a certeza que se fosse hoje não perderia aquela venda.

Está certo que, uma falha como aquela, não cometeria mais, pois atualmente usa chapéu, todos os dias.

Os problemas de antes já não são os mesmos.

As pessoas parecem que não são mais iguais, a cada dia surgem novos problemas, apesar de sua velha idade, o que hoje lhe aflige são as dificuldades financeiras que sua empresa enfrenta, após trinta e seis anos de sucesso, no mesmo ramo.

Procurou modernos investidores, com suas complexas técnicas administrativas.

A todos, contava sua vida, mas a ninguém interessava.

O problema talvez fosse aquele chapéu, não ele por si só, mas a representação que o seu uso trazia de uma cultura antiga, ultrapassada, ineficiente, estagnada… enfim, o tempo do vendedor havia passado.

O jovem vendedor, que já não é vendedor, muito menos jovem, tentou durante dias respostas para suas perguntas, não as encontrou, sofrendo assim sua penúltima derrota.

A última, foi quando perdeu a batalha de sua vida e ao lado de seu chapéu, terminou sua existência.

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