A arte do equilíbrio

Equilíbrio

Vivemos em um mundo concorrido.

A competição é acirrada, o estresse sufocante, as contas são cada vez mais e maiores, a necessidade de status assola a muitos, a segurança, a diversão, enfim, tudo custa e gera um custo, as vezes, alto demais.

O que o seu trabalho representa para você?

A possibilidade de progredir, ou a necessidade de progredir?

E progressão, com que fim?

Vemos casos como os “workaholics”, ou seja, os viciados em trabalho, você é um?

Os excessos são desvios involuntários que geram angústias e traumas, muitas vezes inconscientes e irregressíveis. Quanto do que você faz, você precisa fazer? Quanto te dá prazer e quanto é obrigação?

russellO filósofo inglês, Bertrand Russell, escreveu o livro “Elogio ao ócio”, onde afirmava que se o trabalho fosse algo realmente bom, seria uma fonte de prazer e, em geral, não é o que acontece.

Claro que não estou dizendo que o trabalho é algo maléfico, nem Russell o dizia, afirmo, apenas, que devemos questionar a dedicação total e sentido existencial em algo irracional.

Seria bom se você pudesse parar uns minutinhos e refletir para qual caminho está indo.

Ainda, sobre o livro, Russell dizia:

“A idéia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos. Na Inglaterra do início do século XIX, a jornada de trabalho de um homem adulto tinha quinze horas de duração. Algumas crianças cumpriam, às vezes, essa jornada, e para outras a duração era de doze horas. Quando uns abelhudos intrometidos vieram afirmar que a jornada era longa demais, foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime. Eu era ainda criança quando, pouco depois de os trabalhadores urbanos terem conquistado o direito de voto, e para a total indignação das classes superiores, os feriados públicos foram legalmente instituídos. Lembro-me de uma velha duquesa exclamando: ‘O que querem os pobres com esses feriados? Eles deviam estar trabalhando.’

Nos Estados Unidos, os homens costumam trabalhar longas horas, mesmo quando já desfrutam uma ótima situação, e ficam sinceramente indignados com a idéia do lazer para os trabalhadores, a não ser na forma do castigo cruel do desemprego. Na verdade, eles rejeitam o lazer até para os seus filhos. De um modo muito estranho, ao mesmo tempo que desejam que seus filhos trabalhem tanto que não tenham tempo de se civilizarem, esses homens não se importam que suas esposas e filhas não se dediquem a trabalho algum. A inutilidade esnobe, que nas sociedades aristocráticas se estende a ambos os sexos, numa plutocracia é limitada às mulheres. Isto porém não torna a inutilidade mais de acordo com o bom senso.

O uso judicioso do lazer, devo admitir, é produto da civilização e da educação. Um homem que toda a sua vida trabalhou longas horas irá se sentir entediado se ficar ocioso de repente. Mas, sem uma quantidade adequada de lazer, a pessoa fica privada de muitas coisas boas. Não há mais nenhum motivo pelo qual a maioria da população deva sofrer tal privação, e só um ascetismo tolo faz com que continuemos a insistir no excesso de trabalho quando não há mais necessidade. Mas o que acontecerá quando se chegar à situação em que o conforto seja acessível a todos sem a necessidade de tantas horas de trabalho?

No Ocidente, temos várias formas de lidar com esse problema. Não nos empenhamos nem um pouco na realização da justiça econômica, de modo que a maior parte do produto total fica nas mãos de uma minoria, boa parte da qual simplesmente não trabalha.

Devido à total ausência de controle central sobre a produção, produzimos uma imensa quantidade de coisas de que não precisamos. Mantemos ociosa uma parcela considerável da população trabalhadora, que se torna dispensável justamente porque se impõe o sobre trabalho à outra parcela. Quando esse método se revela inadequado, fazemos a guerra: colocamos um monte de gente para fabricar explosivos e outro tanto para explodi-los, tal como crianças que acabaram de descobrir os fogos de artifício. Combinando todos esses mecanismos, somos capazes, ainda que com alguma dificuldade de manter viva a noção de que uma grande quantidade de trabalho manual é o quinhão inevitável do homem comum.

Movimentar a matéria em quantidades necessárias à nossa existência não é, decididamente, um dos objetivos da vida humana. Se fosse, teríamos de considerar qualquer operador de britadeira superior a Shakespeare. Fomos enganados nessa questão por dois motivos. Um é a necessidade de manter os pobres aplacados, o que levou os ricos a pregarem, durante milhares de anos, a dignidade do trabalho, enquanto tratavam de se manter indignos a respeito do mesmo assunto. O outro são os novos prazeres do maquinismo, que nos delicia com as espantosas transformações que podemos produzir na superfície da Terra. Nenhum desses motivos exerce um especial fascínio sobre o verdadeiro trabalhador. Se lhe perguntarmos qual é a melhor parte de sua vida, ele dificilmente responderá: ‘É o trabalho manual, que sinto como a realização da mais nobre das tarefas humanas, e também porque fico feliz em pensar na capacidade que tem o homem de transformar o planeta. É verdade que meu corpo precisa de horas de descanso, que procuro preencher da melhor forma, mas meu maior prazer é ver raiar o dia para poder voltar ao trabalho, que é a fonte da minha felicidade.’ Nunca ouvi nada do gênero saindo da boca de nenhum trabalhador. Eles encaram o trabalho como deve ser encarado, uma forma de ganhar a vida, e é do lazer que retiram, aí sim, a felicidade que a vida lhes permite desfrutar.”

Talvez você estranho o fato de estar em um Blog que fala sobre empresas, discutindo o excesso de trabalho, mas não veja isso como uma contradição e sim como um alerta para que o seu trabalho seja repensado.

Uma vida mais leve, com mais prazeres, te qualifica mais para o trabalho, pois te oferece descanso, que gera prazer, que fornece criatividade e por fim, capacidade.

Trabalhe, muito, mas pense ainda mais, quanto da sua dedicação é necessária e quanto é imposta?

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