Você saberia resolver estes dilemas?

Seguindo no mesmo tema do Post Anterior, qual decisão tomar quando aspectos morais estão em jogo?

Talvez você não perceba, mas essas decisões interferem em tua vida como um todo, tanto no aspecto profissional, quando existencial, assim, saber quais o caminho que você escolherá é sempre um bom treinamento para sua inteligência intrapessoal.

Leia os temas abaixo e conheça um pouco mais de você mesmo…

Totem e tabu

No seu país, a tortura de prisioneiros de guerra é proibida. Você é tenente do Exército e recebe um prisioneiro recém-capturado que grita: “Alguns de vocês morrerão às 21h35”. Suspeita-se que ele sabe de um ataque terrorista a uma boate. Para saber mais e salvar civis, você o torturaria?

( ) Torturaria

( ) Não torturaria

Recentemente, Israel e os EUA foram duramente criticados pela prática de tortura de terroristas árabes em prisões e pelas tentativas de legalizá-la em forma de “pressão psicológica” ou “pressão física moderada”. Na defesa, os países usaram dilemas como esse.

Se você achar que o correto é torturar o prisioneiro, vai legitimar carceragens sangrentas. Por outro lado, caso se recusasse a torturá-lo, poderá deixar inocentes morrer.

Essa situação também se parece com as anteriores – pela razão pura, trata-se de salvar o maior número de vidas.

Mas por que, então, é tão difícil tomar a decisão de torturar o homem?

Além do instinto básico de não-agressão apontado pelo cientista Joshua Greene, somos movidos por outra emoção primitiva: o nojo.

É isso aí, o mesmo nojo que faz você ter uma ânsia de vômito ao olhar um esgoto.

“Acreditamos que a aversão moral é nojo mesmo, e não apenas uma metáfora”, diz o psicólogo Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia.

Em uma de suas pesquisas, Haidt mostrou vídeos de neonazistas a seus voluntários, monitorando a atividade cerebral deles.

Concluiu que sentiam nojo, e não uma reprovação racional.

É por isso que, em casos que provocam asco, como a tortura, costumamos agir conforme o absolutismo moral: as regras não devem ser transgredidas nem para salvar inocentes.

Ainda mais se lembrarmos que os países que querem legalizar o método geralmente se valem de dilemas como esse para situações mais leves, em que a tortura não vai resultar em vidas salvas.

Os limites da promessa

Um amigo quer lhe contar um segredo e pede que você prometa não contar a ninguém.

Você dá sua palavra. Ele conta que atropelou um pedestre e, por isso, vai se refugiar na casa de uma prima. Quando a polícia o procura querendo saber do amigo, o que você faz?

( ) Conta à polícia

( ) Não conta à polícia

O antropólogo holandês Fonz Trompenaars realizou pesquisas em diversos países com dilemas como esse.

O mais interessante é que as respostas variaram de acordo com o povo.

A maioria dos russos acusaria o amigo na lata.

Outros mentiriam para protegê-lo, dando dicas ambíguas à polícia, como os americanos.

Já os brasileiros inventariam histórias malucas para dizer que a culpa não era do amigo, mas do pedestre, que era um suicida.

Os gregos antigos já tinham consciência de que cada cultura tem noções diferentes sobre o que é certo ou errado: diziam que havia tantas morais quanto povos no mundo.

A princípio, saber que a moral muda de acordo com a cultura é importante para não julgarmos costumes de um povo como se fossem os nossos, descobrindo suas razões particulares.

Foi o que propôs o antropólogo Franz Boas (1858-1942), considerado o pai do relativismo cultural – a idéia de que nenhuma cultura é melhor que outra.

Mas, quando duas culturas diferentes se chocam, surgem dilemas morais ainda mais difíceis – como o próximo.

Choque cultural

Você é um funcionário da Funai, trabalhando na Amazônia sob ordem expressa de jamais intervir na cultura indígena.

Passeando perto de uma clareira, nota que ianomâmis estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos. Você impediria a morte do bebê?

( ) Impediria

( ) Não impediria

No começo de abril, a Folha de S.Paulo contou a história do índio Mayutá, de 2 anos, que nasceu de uma gravidez de gêmeos.

Como os índios camaiurás acreditam que gêmeos trazem maldição, Mayutá deveria ser envenenado.

O irmão dele já havia sido assassinado quando o pai interveio. Com ajuda da ong Atini, que tenta acabar com o infanticídio entre os índios brasileiros, o pai retirou a criança da tribo.

A ong foi formada pelos pais adotivos da ianomâmi Hakani, que viveu um caso parecido em 1995.

Depois que Hakani nasceu com hipotireoidismo, seus pais receberam do conselho da tribo a ordem de envenená-la. Mas acabaram tomando o veneno eles mesmos. O irmão e o avô foram encarregados de levar a tarefa adiante e não conseguiram – o avô também se suicidou. Hakani, abandonada, desnutrida e quase morta, acabou adotada por um casal de funcionários da Funai.

Um antropólogo do ministério público tentou barrar a adoção, dizendo que era uma agressão à cultura ianomâmi.

E aí, o que vale mais: a vida humana ou o respeito às tradições de um povo?

Se você acha que o certo é deixar a cultura acontecer, é um relativista cultural.

Se considera o valor da vida maior que o das culturas, é um absolutista moral, como o papa Bento 16.

Talvez a solução do dilema esteja na hesitação dos pais.

Ela mostra que o infanticídio não é um consenso entre os índios.

Ou seja, o terror emocional diante de matar o próprio filho existe mesmo em culturas que admitem matar suas crianças.

Isso converge com a tese do psicólogo evolutivo Steven Pinker: assim como qualquer língua do mundo diferencia entre verbo e objeto, a moral também tem suas regras universais, que cada cultura trata de forma diferente.

Segundo a teoria da “gramática universal”, de Noam Chomski, temos uma capacidade de nascença para falar, e o que prova isso são as semelhanças de sintaxe entre todas as línguas do mundo.

Num artigo para o jornal New York Times, Pinker paradiou a tese de Chomski: “Nascemos com uma gramática moral que nos permite analisar as ações humanas mesmo que com pouca consciência disso”.

Mas, como mostram os dilemas morais, nem sempre é fácil fazer essa análise.

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Um comentário sobre “Você saberia resolver estes dilemas?

  1. Pois é Rodolfo, você tem razão, as decisões práticas sempre diferem da teórica porque entram em jogo novos fatores, emoções, reações, etc…
    Interessante o seu texto sobre tais experimentos (aconselho aos que lêem o meu Blog, que visitem).
    Obrigado pela vista e pertinente comentário.
    Grande abraço!

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