Sobre o emprego, de Eike Batista a Saramago

Talvez você não veja, mas existe relação entre o empresário e o escritor.

Vivemos em uma época onde fortunas são alicerçadas sob a opressão de muitos.

Algumas empresas, pensando, únicamente, em si próprias, criam colapsos globais e destroem empregos, com tanto que adquiram fortunas e tenham cada vez mais.

Acredito no capitalismo de resultados concretos, amplos e não limitados.

Não é coincidencia o Wal Mart ser uma das maiores empresas do mundo, na proporção em que é admirada por seus funcionários.

Não é a toa que Bil Gates tem diversos funcionários milionários trabalhando na Microsoft, já que muitos possuem ações de sua empresa.

No Brasil, temos essa prática repitida pelo homem mais rico do país, Eike Batista é conhecido por contratar profissionais a “preço de ouro”, pagando verdadeiras fortunas por seus colaboradores, gerando incentivo e com isso, enriquecendo a todos.

Acredito nessa visão, nesse espírito e não no retrogrado e egoista espírito de onde  um ganha, outros perdem.

Os mais prósperos empresários pensam assim, da mesma forma que o escritor português.

Em relação a isso, reproduzo aqui, uma carta do escritor José Saramago, que trata sobre o capitalismo, quando gerido, sem escrupulos e com interesses individuais.

Não ao Desemprego

A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.

Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?

Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.

E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?

Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?

O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimiento, quer dizer, o seu trabalho.

Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.

Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas.

Texto de José Saramago

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Um comentário sobre “Sobre o emprego, de Eike Batista a Saramago

  1. É POSSÍVEL CONVIVER COM O CAPITALISMO SEM PROMOVER ABUSOS SOCIAIS.
    INFELIZMENTE ESTAMOS A JULGO DE GOVERNANTES CORRUPTOS QUE NOS ESMAGA COM POLÍTICAS ARBITRÁRIAS, MAS ACREDITO QUE A DISTRIBUIÇÃO DE RIQUEZAS SEJA O CAMINHO PARA O EQUILÍBRIO SOCIAL.

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